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homem que vai, a floresta que fica...
A natureza mudava a vida de Márcio
Ayres e a vida de Márcio Ayres mudava o curso da natureza.
Mas, infelizmente, no dia 07 de março de 2003 este
ciclo foi prematuramente interrompido. Um câncer trouxe
a morte a um dos primatologistas mais respeitados na comunidade
científica internacional, autor de vários livros
na área ambiental e dezenas de vezes premiado. Biólogo,
brasileiro, interessado em pesquisar o macaco uacari-branco,
para sua tese de doutorado pela Universidade de Cambridge,
na Inglaterra, Márcio Ayres chegou pela primeira vez
à região de Mamirauá em 1983. Ainda hoje
pouco conhecida, Mamirauá está localizada no
município de Tefé (AM), onde os rios Solimões,
Japurá e Paraná do Aranapu convergem. É
a única região do globo a abrigar aquele que
viria a se tornar o objeto de estudo do pesquisador, o macaquinho
de cara vermelha, pêlos brancos e olhos curiosamente
humanos. Foi deste interesse e da cumplicidade que surgiu
entre o homem e a floresta que surgiram aquelas que hoje representam,
junto com o vizinho Parque Nacional do Jaú, a maior
área de floresta tropical protegida do planeta - as
Reservas de Mamirauá e Amanã.
Desde a infância este cientista paraense
já demonstrava seu interesse pelos primatas e já
dizia que queria ser "estudioso de macacos". Para
dar início a sua jornada, formou-se em biologia em
1976 e aos 20 anos tornou-se administrador do zoológico
de Ribeirão Preto. Pouco tempo depois iniciou seu programa
de Mestrado em Ecologia no Instituto de Pesquisas da Amazônia
(INPA), focando sua carreira para as questões de preservação
da biodiversidade brasileira através das Unidades de
Conservação. Em 1985 inicia sua peregrinação
junto aos órgãos governamentais em busca de
apoio para a implantação de uma área
de proteção para o uacari-branco, visto que
Mamirauá era seu habitat natural e único. Em
1990 o projeto vira realidade e o governo do Estado do Amazonas
oficializa a criação da Estação
Ecológica Mamirauá. Márcio Ayres, que
não era um conservacionista radical, sempre defendeu
para Mamirauá, um modelo de preservação
distinto, no qual é possível conciliar a manutenção
da natureza com a ocupação humana. Para o pesquisador,
os povos da floresta tinham que ser parte do processo e envolvê-los
significaria, além de ajuda na preservação,
o combate à pobreza local. Esta posição,
que rendeu ao pesquisador duras críticas na época,
transformou-se em conquista, quando em 1996 a área
recebeu a denominação de Reserva de Desenvolvimento
Sustentável - garantindo-se assim a permanência
da população ribeirinha local, estimada hoje
em 6 mil habitantes.
O Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
foi a instituição criada por Márcio Ayres
para dar continuidade ao projeto, com ações
que vão desde atividades de pesquisa, saúde
e educação até a preservação
e desenvolvimento regional a partir do manejo sustentável
dos recursos naturais. Neste modelo, a pesca por exemplo,
é controlada mas permitida e os recursos advindos de
sua exploração alimentam o modelo sustentável
idealizado por Márcio Ayres e sua equipe de pesquisadores.
A experiência bem sucedida de Mamirauá
abriu as portas para a criação de mais uma área
protegida, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável
de Amanã, instituída pelo governo do Amazonas
em 1998. Juntas as duas reservas formam uma área de
mais de três milhões de hectares de floresta
tropical protegida.
Este é o tamanho do legado que Márcio
Ayres deixa para o Brasil e para o mundo. Deixa protegido
este enorme pedaço da floresta, daquela que foi sempre
sua fonte de renovação e de energia. Na floresta
Márcio Ayres viveu embrenhado por pelo menos 15 dos
seus 49 anos de vida e a partir dela inspirou todos aqueles
que o conheceram, compartilharam seus sonhos e ideais e sentem-se
hoje mobilizados a dar continuidade a seu trabalho. A Gecko
SocioAmbiental, que foi apoiada e também inspirada
pelas iniciativas de Márcio Ayres em vida, presta a
ele esta homenagem, propondo-se a continuar ajudando a incentivar
outras idéias que dêem continuidade ao trabalho
daquele que ao se aproximar da natureza nunca mais saiu de
perto dela.
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