|
Fazer o bem e olhar a quem
Rogéria Taragano - Out/2002
Entregar produtos de qualidade, a preços
competitivos, com elevado padrão de atendimento ao
consumidor e com processos produtivos que respeitem o meio
ambiente já pareceria bastante mas ainda é pouco.
Ainda é pouco? Sim parece ser a resposta de um novo
perfil de consumidor, consciente, que demanda uma atuação
corporativa que vai alem destes atributos de excelência
já bastante difíceis de se atingir em conjunto.
Este consumidor consciente acrescenta a esta lista de pressupostos
os "atributos sociais e ambientais". Sim, entramos
na era da empresa Socialmente Responsável, cuja gestão
esta pautada num compromisso ético que transcende os
atributos acima descritos por incorporar em sua estratégia
de atuação a questão da Responsabilidade
Social Corporativa e os conceitos da Sustentabilidade. Provavelmente
pela atualidade do tema, parece ainda não existir uma
única definição universalmente aceita
para o termo Responsabilidade Social Corporativa. Sabemos,
no entanto, que uma definição mais próxima
da realidade é aquela bastante ampla, que aborda a
Responsabilidade Social como uma forma de gestão,
que é totalmente integrada e é ao mesmo tempo
integradora das praticas organizacionais, das formas de produção,
dos relacionamentos da organização com seus
diferentes públicos, enfim de sua maneira de "fazer
negócios" incorporando as vertentes ambiental
e social.
Vivemos uma época de altíssima
sensibilidade em relação a questões éticas,
especialmente após os diversos contra exemplos oferecidos
pelas ex- "blue chips" Americanas que do dia para
noite viram suas ações despencar na Bolsa e
sua reputação afundar na lama em função
de praticas administrativas questionáveis. Constatou-se
mais uma vez que a reputação corporativa é
um bem construído duramente ao longo dos anos, mas
que pode ser destruído instantaneamente aos olhos de
todos. Trata-se de um bem não imediatamente recuperável
após uma crise. Não é a toa que "melhorar
a reputação" foi uma das razões
apontadas por 82% dos entrevistados em recente pesquisa para
justificar a atual s atenção das empresas a
questões de Responsabilidade Social. Trata-se de um
levantamento realizado pela Pricewaterhouse (junho/02), que
ouviu executivos das 140 maiores empresas Americanas, cujo
faturamento soma US$2,5 trilhões anuais. A segunda
razão dada foi o foco em resultados financeiros, mostrando
que 72% destas empresas estão acreditando que o uso
de princípios de sustentabilidade irão ajuda-las
também na redução de custos. Constatou-se
que hoje poucas empresas negariam a importância da Responsabilidade
Social, pois 62% dos entrevistados a colocaram como elemento
indispensável na obtenção de vantagens
competitivas.
Alem dos fatores mais intrínsecos
ao próprio negocio, existem os fatores contextuais
impulsionando a atuação corporativa frente as
questões da Responsabilidade Social. O enorme aumento
de poder das organizações globais ajudam a explicar
e justificar seu posicionamento atual. Alguns exemplos: A
General Motors, maior empresa do mundo, tem um faturamento
superior ao PIB (Produto Interno Bruto) da Dinamarca, Noruega,
Polônia ou Arábia Saudita. Outro exemplo, a soma
do PIB (Produto Interno Bruto) de todos os países do
mundo, excluindo-se os 10 maiores, é menor que o faturamento
das 200 maiores empresas mundiais. Enfim, quando se compara
o faturamento das maiores corporações com o
PIB dos países, dos 100 maiores resultados, 51 pertencem
as corporações globais. Portanto as empresas,
mais que qualquer outra instituição, adquiriram
tamanho poder e alcance que trouxe a elas também proporcional
responsabilidade. Falamos hoje de empresas globais, lidando
com problemas globais e sendo chamadas a apresentar também
soluções globais. As empresas, portanto, podem
e devem ser responsáveis não mais unicamente
pela geração de empregos e pagamento de tributos,
mas também pela condução de negócios
sustentáveis que conduzam a um maior equilíbrio
social, com redução da pobreza e com respeito
ao meio ambiente. Numa sociedade de consumo, o consumidor
consciente começa a fazer suas escolhas, com um olho
no produto e outro no produtor, usando seu poder de compra
como moeda para a mudança da realidade social. As corporações
tem hoje a responsabilidade, mas principalmente a oportunidade
de fazer do mundo um lugar melhor e de "fazer o bem e
olhar a quem"
(Referências: WEC - World Environment Center,
Instituto
Akatu e Gazeta Mercantil 19/09/02)
|