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MARCO
AURÉLIO PEREIRA FREITAS
ÉTICA, ESTÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL:
a comunicação e a imagem social
das empresas
Monografia
apresentada ao Curso de Comunicação Social, habilitação Relações
Públicas da Universidade Federal do Maranhão, para obtenção do
grau de Bacharel em Comunicação Social.
Orientadora: Profª Adeilce Gomes de
Azevedo
Co-orientadora: Luiziane Silva Saraiva
São Luís
2003
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO
...............................................................................................................................3
2
RESPONSABILIDADE
SOCIAL.......................................................................................................4
2.1 Breve
histórico...........................................................................................................................5
2.2 Sociedade civil e Estado
neoliberal...........................................................................................6
2.2.1 O Estado e a participação do setor privado em questões de
responsabilidade pública.............................................................................................................................................9
2.3
Entendimento conceitual dos
termos.......................................................................................10
3 ÉTICA..........................................................................................................................................13
3.1 A trajetória da ética no
mercado..............................................................................................14
3.2 Ética e transparência nas atividades
empresariais..................................................................16
4
ESTÉTICA....................................................................................................................................18
4.1 A relação entre a ética e a
estética: o belo e o
bom................................................................19
5
COMUNICAÇÃO E RESPONSABILIDADE SOCIAL: o papel do
profissional de Relações
Públicas.........................................................................................................................................21
5.1 As relações públicas e a
relação entre a ética e a estética
....................................................22
5.2 Imagem
social..........................................................................................................................23
6 CONSIDERAÇÕES
FINAIS............................................................................................................26
REFERÊNCIAS................................................................................................................................28
1 INTRODUÇÃO
O interesse por este estudo se
deu a partir da observação do crescente número de divulgações de
ações sociais que aparecem atualmente na mídia.
Baseado nesta observação surgiu
a indagação sobre como conceituar essas ações, já que se
identifica uma confusão em torno de conceitos que estão
nitidamente em disputa, tais como: cidadania empresarial,
filantropia corporativa, filantropia estratégica, empresa
solidária, marketing social, ação da cidadania, entre outros.
A confusão torna-se maior quando
nos deparamos com a prática das diversas ações, na medida em que
elas são extremamente heterogêneas e diferenciadas ou, então,
quando há o uso de terminologias parecidas para distintas
atuações.
Na verdade, o questionamento se
dá acerca do objetivo-fim dessas ações. O que leva realmente uma
empresa a organizar um projeto social, qual o seu nível de
comprometimento, ela está realmente preocupada com as questões
sociais ou está apenas acompanhando um modismo? Todas as
iniciativas empresariais possuem a mesma intenção?
A responsabilidade social no
Brasil ainda é algo contemporâneo e em plena formação, sem ainda
contar com uma definição concreta de suas atribuições. Muitas
empresas, no afã de se promoverem, utilizam o social como fator
estético de construção de imagem, ignorando as questões
éticas e reais inerentes à responsabilidade social. Isto
porque, a busca pela imagem empresarial perfeita acaba por levar
a um conflito entre o ético e o estético. As ações em prol de um
bem comum, nos remete à ética, contudo quando se procura pelo
“belo”, pela imagem satisfatória, estamos nos referindo à
estética. Para evitar essa dicotomia e diminuir os desvios nos
objetivos das ações sociais seria necessário planejar uma forma
de trabalhar a construção dessa imagem empresarial de forma
responsável.
Este trabalho não objetiva criar
teorias ou soluções práticas para o uso indiscriminado do
social, por parte de empresas ou profissionais. Mas pretende
evidenciar as principais questões pertinentes ao uso da imagem
do social por parte de qualquer organização, apontando a
correlação entre a ética, a estética, a responsabilidade social
e as relações públicas. Também, ressalta a importância sobre a
responsabilidade social não se restringir apenas à publicidade
empresarial, ou seja, a busca da imagem por si só e sim, ter um
caráter efetivo de transformação da realidade.
Para desenvolvimento do tema,
este trabalho foi dividido em quatro partes: na primeira, faz-se
um estudo sobre a responsabilidade social, sua definição e sua
história, além de abordar questões como a participação da
sociedade civil e a delimitação da atuação empresarial no
social.
Na segunda parte, apresenta-se a
ética, sua conceituação, relação histórica com o mercado,
incluindo uma análise sobre a transparência nas atividades
empresariais. Depois, passa-se para a estética com a definição
de sua área de atuação, assim como o seu correlacionamento com a
ética.
Na quarta e última parte
analisa-se a participação da comunicação na gestão social,
incluindo o papel do profissional de relações públicas, além de
se fazer uma abordagem sobre a imagem social das empresas.
2 RESPONSABILIDADE SOCIAL
A crescente conscientização da
sociedade a respeito dos valores sociais, fruto do
desenvolvimento econômico e histórico, acarretou uma nova
abordagem administrativa empresarial. A partir do momento em que
as pessoas passaram a questionar os impactos que a ação
empresarial causava na sociedade, criou-se a consciência da
procura por uma postura mais responsável das empresas. A difusão
do conceito de responsabilidade social como uma extensão do
papel de empresa, que deixa de ser apenas o de gerar lucro,
pagar impostos ou criar empregos, faz com que ela seja vista
como co-responsável pela promoção do desenvolvimento e do
bem-estar da comunidade na qual ela está inserida.
No contexto dessa realidade, as
empresas assumem uma posição mais ampla, surgindo daí a
discussão sobre o seu papel como agente social no processo de
desenvolvimento da sociedade.
A responsabilidade social pode
ser entendida como “o comprometimento de todos os agentes
sociais (governos, empresas privadas, sociedade civil) com todos
aqueles que com eles interagem (funcionários, fornecedores,
comunidades, clientes etc…).” (LIMA, 2002, p. 106). Toda empresa
tem uma responsabilidade social e é seu dever pensar no
bem-estar da sociedade e não apenas no lucro.
A preocupação com o social é uma
questão de cidadania, mais particularmente da cidadania
participativa. A cidadania se origina nas sociedades de classe,
identificando o indivíduo na esfera pública. A consciência sobre
ela passa pela indignação às injustiças, à exploração e a
rejeição ao esmagamento da dignidade humana. A partir daí,
idéias sociais e instituições se constituem e se tornam
realidade mediante o esforço coletivo da sociedade. A
responsabilidade social pode ser definida como o dever da
empresa de ajudar a sociedade a atingir a cidadania.
O Instituto Ethos de
Responsabilidade Social, uma organização de caráter privado sem
fins lucrativos, que trabalha para disseminar o conceito de
responsabilidade social empresarial no Brasil, vê a
responsabilidade social como um modelo de gestão que vai além da
lei e da simples filantropia, isto é, a empresa socialmente
responsável deve ir além das obrigações sociais. Para o Ethos,
uma empresa não pode considerar-se socialmente responsável
apenas por cumprir benefícios legais, como distribuição de vale
transporte, creche para os filhos de funcionários etc.
A responsabilidade social é a
demonstração pública da empresa em participar de forma ativa em
ações voltadas para o desenvolvimento da comunidade onde ela
atua. Estas ações sociais devem estar inseridas na cultura da
empresa, fazer parte de sua agenda e não serem apenas ações
isoladas de doações ou pura filantropia. Não se pode tratar o
envolvimento social da empresa como simples modismo, deve haver
continuidade, pois essa mesma demonstração pública aumenta as
pressões sociais e mercadológicas no tocante à postura da
organização. Assim, a continuidade passa a ser uma necessidade e
não uma opção e sua ausência no campo social leva ao desgaste da
imagem empresarial diante de seus públicos.
Segundo Grajew,
[...] não se pode confundir a
responsabilidade social empresarial com um investimento isolado
da empresa. Tais investimentos são louváveis mas o conceito em
questão é muito mais amplo e os problemas devem ser tratados em
sua “abrangência total” […] Há uma contextualização do
“investimento social” condicionado às atividades da empresa como
um todo. (GRAJEW,
apud GARCIA, 2002, p. 28).
Outro problema grave é quando as
empresas realizam ações sociais com vista à isenção de impostos
ou visibilidade na mídia, porque nesse caso não teremos
investimento social e sim investimento privado para fim privado,
já que a empresa ganha antes e mais que a sociedade. O GIFE -
Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, organização que
congrega várias entidades preocupadas com a questão da
responsabilidade social, define o conceito de investimento
social como “o uso planejado, monitorado e sistemático de
recursos privados, provenientes de pessoas físicas ou jurídicas,
em projetos sociais de interesse público.” (RAPOSO, 2002, p.
86).
Diante do que já foi dito,
pode-se perceber que a sociedade está diante de um novo
comportamento social das empresas, mais dinâmico e responsável,
que não se limita apenas à estrutura neoliberal de manutenção do
Estado mínimo, ou à filantropia empresarial dos anos 50, mas a
uma responsabilidade social empresarial vinculada à
transformação da realidade e busca da cidadania.
2.1 Breve histórico
Segundo Ashley, a questão da
responsabilidade corporativa tornou-se evidente em 1919, com o
julgamento na justiça americana do caso de Henry Ford:
Henry Ford, presidente e
acionista majoritário da Ford Motor company, e seu grupo de
acionistas liderados por John e Horacle Dodge, que contestavam a
idéia de Ford. Em 1916, argumentando a realização de objetivos
sociais, Ford decidiu não distribuir parte dos dividendos aos
acionistas e investiu na capacidade de produção, no aumento de
salários e em um fundo de reserva para a diminuição esperada de
receitas devido à redução de preços dos carros. A Suprema Corte
de Michigan decidiu a favor dos Dodges, entendendo que as
corporações existem para o benefício de seus acionistas e que os
diretores precisam garantir o lucro não podendo usá-lo para
outros fins. (ASHLEY apud TOLDO, 2002, p. 76).
Um dos fatores que influenciou a
decisão da Corte foi que idéias como investimento social e
distribuição de renda eram vistas como pensamentos socialistas
e, logo, reprimidas pela elite política americana da época.
Após a Segunda Guerra Mundial e
a grande depressão, esse tipo de conduta centrada no lucro e
descompromissada com o social sofreu críticas baseadas em
argumentos que apresentavam os acionistas como sendo, na
verdade, passivos proprietários que abdicavam do controle em
prol dos diretores. Estes sim, poderiam assumir
responsabilidades com seus públicos. (TOLDO, 2002).
No contexto das necessidades do
período e crescimento das organizações empresariais, diversas
Cortes dos Estados Unidos decidiram favoravelmente às empresas
que acrescentassem a filantropia às suas ações, o que passou a
ser copiado e enfatizado em todo o país.
Na década de 50, nos Estados
Unidos, o meio acadêmico passou a discutir a importância da
responsabilidade social nas corporações. E nos anos 60, os
estudiosos europeus apontaram soluções para possíveis problemas
da sociedade que poderiam ser resolvidos com a participação do
meio empresarial.
Nos anos 70, o assunto ganhou
amplitude e a doutrina se difundiu por toda a Europa Ocidental,
tanto no meio acadêmico quanto no empresarial. Na Alemanha
Ocidental, a rápida difusão do tema levou as empresas a
integrarem o balanço financeiro aos objetivos sociais,
configurando-se, então, a importância do balanço social. Mas foi
a França que, ainda na década de 70, obrigou as organizações a
realizarem balanços periódicos de seu desempenho social relativo
aos funcionários e às condições de trabalho. (OLIVEIRA, 2002).
A partir da década de 80 cresceu
a busca pelo social, que passa a ser associado com a ética
empresarial e com as questões ambientais, já que é nesta década
que começaram a ser divulgados os estudos sobre o buraco na
camada de ozônio e as fábricas foram apontadas como principais
responsáveis por esse dano, além da constatação da extinção de
espécies fundamentais ao ciclo normal da vida na terra.
O homem se viu diante dos
impactos causados pelo seu potencial criativo. No mundo inteiro,
os papéis sociais e a responsabilidade dos homens e das nações
foram revistos. A liberdade e a agilidade dos meios de
comunicação abrem espaço para a mobilização de pessoas e a
formação de grupos em torno de causas de interesses coletivos,
como os direitos humanos e o meio ambiente. Estes fatores fazem
com que, ainda nos anos 80, a publicidade sobre as ações sociais
da empresas ganhe força nos Estados Unidos e Europa. (BUENO,
2002).
Na década de 90, autores passam
a dedicar-se realmente ao tema, são realizados encontros
internacionais, sobre a ecologia, como a ECO-92,
o que contribui para o aumento dos estudos sobre o assunto e a
definição do papel das organizações na responsabilidade social.
No Brasil, como na maior parte
da América Latina, a questão da responsabilidade social
empresarial nasce a partir da década de 80, quando o país avança
para o fim do regime militar e se inicia o processo de
democratização do país. Esse atraso se deve ao fato de que a
responsabilidade sobre o social é um sentimento que se manifesta
através da consciência da sociedade e só se tem uma sociedade
civil consciente e forte em um ambiente democrático.
A constituição de 1988
estabeleceu a participação da sociedade civil nas políticas
públicas governamentais em áreas como educação, comunicação,
saúde, entre outras. Através de conselhos paritários, os
diversos setores organizados da sociedade civil tiveram a
possibilidade de discutir políticas públicas por meio da
participação em redes e fóruns. Com essa abertura ela se
fortaleceu e organizou-se em movimentos e instituições, tipo
ONG’s.
Assim, a sociedade passou de observadora a coadjuvante na esfera
da política brasileira, fiscalizando, denunciando e cobrando
ações que resolvessem os problemas sociais.
Em 1995, é criado o GIFE
– Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, primeira entidade
que genuinamente se preocupou com o tema da responsabilidade
social, filantropia e cidadania. O GIFE apresenta como missão
aperfeiçoar e difundir os conceitos e práticas do uso de
recursos privados para o desenvolvimento do bem comum.
Em setembro de 1988, nasce o
Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social com a
missão de disseminar a prática da responsabilidade social
empresarial, ajudando as empresas a assumirem responsabilidades
com todos aqueles que são impactados por suas atividades e
prosperar, contribuindo para o desenvolvimento social, econômico
e ambientalmente sustentável.
Além do nascimento dessas duas
grandes instituições, outros eventos contribuíram para o
desenvolvimento da responsabilidade social no Brasil: em 1992,
acontece a ECO-92, no Rio de Janeiro, um encontro de líderes
mundiais para tratar sobre a responsabilidade das nações em
relação ao meio ambiente; no mesmo ano, o Banespa divulga suas
ações sociais; em 1993, o sociólogo Herbet de Souza, o Betinho,
lança a Campanha Nacional da Ação da Cidadania Contra a Fome, a
Miséria e pela Vida, evento de repercussão nacional; em 1997, o
mesmo Betinho, em parceria com o jornal Gazeta Mercantil, cria o
selo do Balanço Social para estimular as empresas brasileiras a
divulgarem seus resultados na participação social. Ainda na
década de 90, a Fundação Abrinq
pelos Direitos da Criança lança o selo Empresa Amiga da Criança,
para destacar as empresas que combatem o abuso e exploração de
menores. (TOLDO, 2002).
2.2 Sociedade civil e Estado
neoliberal
De acordo com as idéias de Adam
Smith, “[...] o Estado liberal regula a sociedade como expressão
da vontade social e da igualdade individual.” (SMITH apud
FERREIRA, 1993, p. 190).
Nas idéias liberais a ação
espontânea do mercado geraria um equilíbrio social benéfico para
todos que, através dele, teriam acesso à produção local. Smith
afirmava que em condições de livre-concorrência, a riqueza do
indivíduo só dependeria da sua inteligência e do seu esforço.
Sob este enfoque, o Estado ideal seria aquele que deixasse a
sociedade civil cuidar da produção e da distribuição da riqueza
e se incumbisse de estender os direitos aqueles que deles
precisassem.
Com o tempo, o regime de
livre-concorrência já não pode mais atender com suficiente
credibilidade à sua promessa de desenvolvimento social-econômico
do homem.
O modelo liberal, na realidade
um modelo da economia do comércio em pequena escala, só tinha
previsto relações de trocas horizontais entre proprietários
individuais de mercadorias: havendo livre concorrência e preços
independentes, então ninguém deveria poder obter tanto poder que
lhe fosse permitido dispor sobre o outro. (HABERMAS, 1984,
p.172).
O crescimento das empresas, que
se transformaram em organizações, culminou com o desnivelamento
do mercado e a busca pela mais-valia levou à supressão dos
direitos de igualdade prometidos pelo liberalismo.
Em 1932 existiam nos Estados
Unidos, milhões de pessoas com todas as suas crenças no heroísmo
e na competência, reclamando o direito de manter as condições de
vida que estavam perdendo. Sabiam que não eram vagabundos e
arruaceiros, e relutavam em se tornar mendigos. Seu orgulho os
impedia de assim se sentirem: eram apenas trabalhadores
desempregados. (FERREIRA, 1993, p. 191).
Diante das situações precárias
em que viviam, essas pessoas perceberam que de nada lhes
adiantariam as cidadanias civil e política, que lhes eram
oferecidas, se elas não fossem usadas para exigir soluções para
o problema crucial da recessão que atingia a sociedade da época.
Pressionado pelos operários para elaborar formas para sair da
crise, o Estado interviu no mercado e promoveu um pacto social
entre capitalista e trabalhadores.
A exemplo do liberalismo do
início do século XX, o neoliberalismo também não cumpriu
com a promessa de melhorar o mundo. O crescimento e
desenvolvimento industrial, aliados à livre-concorrência,
deveriam vir vinculados ao crescimento social do ser humano, no
entanto, vive-se no ápice dos contrastes, entre as riquezas
milionárias e a penúria total. Antagonismo este que está
presente em todo o mundo, tanto nos países desenvolvidos (do
hemisfério norte) como nos “em desenvolvimento” (do hemisfério
sul).
Observa-se, atualmente, que há
uma grande disseminação da idéia de que as teorias liberais
seriam a única saída para os problemas mundiais. Com a
globalização da economia, entende-se que todos (profissionais,
empresas, países) devem ser igualmente competitivos. No entanto,
o que não é levado em conta é a grande diferença social
existente nos países em desenvolvimento. Pessoas de países em
que há alto índice de analfabetismo e desemprego e a
desigualdade social é imensa, não podem ser avaliados da mesma
forma que as populações dos países desenvolvidos.
Não se trata de afirmar que os
profissionais dos países em desenvolvimento são naturalmente
menos capazes. Até porque a discussão refere-se à questão da
competitividade e não há como pensar em competitividade ou
igualdade se a maioria das pessoas desses países não tem nem
suas necessidades básicas atendidas. Além de que a falta de
investimentos nos setores da educação, como a ciência e a
pesquisa, leva as pessoas a dedicarem menos tempo a aprender e
mais a produzir.
O neoliberalismo nasceu logo
depois da Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos e Europa
Ocidental, como forma de diminuir a presença do Estado no
mercado. Com o ambiente de reconstrução da Europa, presente na
época e logo depois de guerra fria, o medo de uma intervenção na
economia, fez com que os teóricos do neoliberalismo
considerassem a participação do Estado uma ameaça total à
liberdade do homem.
Fruto do liberalismo, o discurso
neoliberal se adaptou muito bem aos países desenvolvidos, porque
a maioria deles passou por uma experiência liberal entre o fim
do século XIX e o início do XX, mas que não deu certo. Este fato
culminou com um forte investimento desses países na seguridade
social, com a criação de sindicatos, promoção do desenvolvimento
da cidadania e o estímulo à industrialização, a fim de reduzir
as diferenças sociais.
Nos países em desenvolvimento o
mesmo não ocorreu, pois aqueles que neste período de tempo não
eram colônia da Europa viviam sob regimes ditatoriais e/ou
militares, onde a relação do cidadão com o Estado não era, em
primeira instância, a participação política, mas um
posicionamento genérico de submissão que espera atendimento sem
querer impor decisões. Isto fez com que, com o tempo, o Estado
se afastasse de algo que nunca promoveu, gerando uma grande
carência das necessidades sociais básicas.
No Brasil, a formação da nossa
ordem política manteve presente um processo de excludência das
classes populares em tudo o que diz respeito à tomada de
decisões.
Presos a uma sociedade agrária,
[...] o povo aqui se formou como
que bestializado, organizando-se verdadeiros currais eleitorais
para os donos do poder. Durante muito tempo se fundiram os
sistemas econômico e social, com ampla prevalência de relações
políticas de caráter pessoal. (FERREIRA, 1993, p. 213).
Esse processo inibiu por muito
tempo a formação de práticas igualitárias e impediu que se
organizassem coletividades a partir de fins comuns. Ainda hoje
sobrevivem práticas que remontam ao tempo dos coronéis. O
clientelismo, versão moderna do coronelismo, desempenha
importante papel no atraso social do país ao agir como mediador
entre o cidadão comum e as instâncias de poder do Estado, ele
freia o desenvolvimento da cidadania participativa e torna as
instâncias públicas inacessíveis ao povo.
A relação que o neoliberalismo
coloca entre o Estado e a iniciativa privada, ou seja, a relação
entre o público e o privado, é o que gera o debate sobre o papel
da sociedade civil.
Segundo Pereira, “É essencial
para o capitalismo a clara separação entre o Estado e o mercado;
só pode existir democracia quando a sociedade civil, formada por
cidadãos, distingue-se do Estado […]" (PEREIRA apud BUENO, 2002,
p. 280).
Esse pensamento identifica-se
com a teoria do Estado mínimo, que articula propostas que
valorizam o papel da sociedade civil na resolução das mazelas
sociais em substituição ao mercado.
A sociedade civil manifesta-se
através de setores organizados da sociedade, voluntários e
autônomos em relação ao Estado e ao mercado. No entanto, a
afirmação da autonomia da sociedade civil implica observações
importantes: em primeiro lugar no que se refere às fronteiras,
tal afirmação conduz a uma diferenciação entre as esferas que
permite o questionamento da dicotomia público (Estado) e privado
(mercado), que por sua vez, separa sociedade e poder político,
reduzindo o conceito de política ao campo da organização
estatal. Na medida em que os objetivos associativistas da
sociedade civil não coincidem com as práticas de tomada e
manutenção do poder político e muito menos com as intenções de
lucro, característico do mercado, ela se distancia dessas duas
outras esferas.
E em segundo, no que se refere à
metodologia de ação. Enquanto o Estado e o mercado operam de
acordo com uma lógica tecnicista, ela segue a lógica
comunicativa, com a pressuposição de que as pessoas desejam
viver em sociedade, dialogando e reconhecendo publicamente os
direitos e interesses dos outros na resolução dos problemas.
No Brasil, a relação entre
Estado e sociedade civil foi extremamente impactado pelas
políticas neoliberais engendradas a partir da década de 90.
Essas idéias tinham a intenção de, crescentemente,
desresponsabilizar o Estado pelo atendimento e garantia dos
direitos de cidadania da população, delegando tal tarefa à
sociedade civil. Há, nessa concepção, um deslocamento de
atribuições que anteriormente eram do Estado, passando para a
“responsabilidade privada” questões que eram do domínio da
“responsabilidade pública”. Na política neoliberal a
solidariedade não é mais baseada em critérios de igualdade e de
universalização dos direitos, mas na benevolência daqueles que
podem ou querem dar um pouco do seu tempo ou dinheiro.
Dagnino afirma que ocorre no
país,
[...] uma perversa confluência
entre um projeto político participatório, construído ao redor da
extensão da cidadania e do aprofundamento da democracia, e um
projeto político neoliberal, de um Estado mínimo que se isenta
progressivamente do seu papel de garantidor de direitos. A
perversidade estaria, então, no fato de que apontando para
direções opostas e até antagônicas ambos os projetos requerem
uma sociedade civil ativa e propositiva. (DAGNINO apud GARCIA,
2002, p. 23).
Dessa forma, conclui-se que o
neoliberalismo utiliza-se dos ideais da sociedade civil para por
em prática sua ideologia de Estado mínimo.
A discussão sobre o projeto
político participatório e o projeto neoliberal de redução do
papel do Estado leva ao questionamento sobre a presença pura e
simples da sociedade civil na resolução dos problemas da
sociedade, que não pode ficar sem qualquer definição sobre que
tipo de participação está sendo abordada. A questão torna-se
mais complexa quando lidamos com a ação social das empresas.
Pois há nesse caso uma relação direta com a esfera do mercado,
além dos interesses do Estado mínimo, podem estar presentes os
interesses da mais valia, ou da completa substituição do Estado
pelas Empresas nas questões de responsabilidade pública.
De qualquer maneira o
voluntarismo da sociedade civil , assumindo as obrigações do
Estado, não leva em conta as condições objetivas imprescindíveis
ao exercício da cidadania. Reconhecendo que querer é poder,
ignora que os homens não escolhem as condições em que nascem. A
vontade dos indivíduos que se configura através de suas opções,
se forma sempre por determinadas condições, vinculadas à
realidade de suas vidas. É ingênuo e egoísta pensar que há um
número infinito de escolhas para todas as pessoas, pois, somente
com a oferta de possibilidades é que o indivíduo é capaz de
realizar os seus objetivos.
2.2.1 O
Estado e a participação do setor privado em questões de
responsabilidade pública
A incursão
de empresas privadas na área social e o papel que podem vir a
exercer traz reflexões sobre até que ponto o setor privado pode
partilhar com o Estado o atendimento social ao cidadão.
Segundo
Peliano,
O
entendimento das próprias empresas sobre a razão de ser da sua
ação social é profundamente revelador do papel que ocupam ou que
pretendem ocupar no arcabouço das políticas sociais [...]
significaria trazer para si a responsabilidade sobre determinada
fatia dos problemas sociais. O envolvimento social passaria a
ser visto não apenas como um ato voluntário, mas também como
obrigação por parte de quem usufrui parcela maior da riqueza
nacional. (PELIANO, 2001, p. 89).
Em
contraponto à afirmação de Peliano, pesquisa realizada pelo IPEA
em 2001, revela que pouquíssimas empresas concordaram com a
afirmação de que é obrigação investir socialmente na comunidade.
Elas preferem atribuir a obrigação ao Estado, relacionando suas
ações ao âmbito da co-responsabilidade.
A limitação
do governo na resolução dos problemas sociais é consciência
geral no país. Por isso, a maioria das grandes empresas já
reconhecem sua co-responsabilidade na resolução dos problemas
sociais. Contudo, a dedicação absoluta nas questões sociais,
eventualmente, diminuiria a ênfase em lucros, o que constitui a
verdadeira missão de uma empresa privada.
O papel que
as empresas podem ocupar no espaço público e a sua forma de
atuação é baseado nos motivos que a levam a atuar e as
necessidades presentes na comunidade onde ela pretende agir.
Mas, mesmo com a plena avaliação das necessidades da comunidade
a ser atingida pela ação social, muitas empresas ainda não
alcançam seus objetivos de transformação social. Em busca de
resultados mais concretos, algumas têm procurado realizar
parcerias com o governo.
São
diversos os caminhos trilhados para uma participação conjunta, e
as experiências apontam, sobretudo, para a ampliação do alcance
e da qualidade das ações desenvolvidas de parte a parte e da
democratização das políticas governamentais. (Id. Ibid., p. 92).
Apesar da
comprovação dos excelentes resultados atingidos nas políticas
sociais através da parceria setor privado-Estado, as empresas
ainda demonstram um certo receio em associar sua imagem às ações
governamentais. No meio empresarial, predominam pensamentos
críticos em relação à presença do Estado nas ações sociais do
setor privado, sendo comuns afirmações como: o Estado é
burocratizado, aplica pouco na área social, os recursos não
chegam até o cidadão comum, a sociedade não reconhece o destino
dos recursos aplicados. Enfim, existe desconfiança sobre os fins
políticos dos programas.
De fato,
consolidou-se a imagem do Estado como problema. Ele passou a ser
visto como ineficiente, ineficaz e provedor de serviços de baixa
qualidade, em contraposição ao mercado, tido como eficiente,
ágil e capaz de oferecer produtos e serviços de qualidade.
Apesar das
críticas à máquina estatal, o setor privado também sofre
dificuldades para desenvolver suas ações sociais. Uma delas diz
respeito à falta de ordenação sobre as ações realizadas. Às
vezes, a mesma comunidade é atendida por mais de uma empresa,
enquanto que outras são esquecidas. É preciso que haja esforço
para o conhecimento do que se está fazendo, pois as divergências
entre os projetos sociais estatais e os privados só contribuem
para o não aprimoramento da qualidade das atuações.
É
necessário que se estabeleça uma relação mais efetiva entre os
dois setores, criando disposição para se trabalharem propostas
conjuntas, evidenciando os papéis de cada um e a autonomia das
partes.
Para que a
contribuição das empresas torne-se mais eficaz, é necessário
caminhar na direção de uma estratégia integrada de enfrentamento
dos problemas sociais, com definição e distribuição de
responsabilidades, em que a participação crescente do setor
privado não signifique superposição ou paralelismo ao Estado,
mas pelo contrário, represente complementação efetiva de
esforços. (Id. Ibid., p. 97).
Sem dúvida,
iniciativas consistentes na área social são sempre bem vindas,
em um país cheio de problemas como o Brasil. No entanto, é
preciso ter claro quais são os papéis e os limites de cada
sujeito na atuação e na proposição de soluções para a atual
situação de miséria e exclusão. As ações do empresariado e da
sociedade civil, por melhor que sejam, não devem ter a pretensão
de substituir a responsabilidade majoritária do Estado em suas
obrigações sociais. É necessário que haja parcerias, mas
valorizando a autonomia de cada agente e o espaço para a
discussão política.
2.3
Entendimento conceitual dos termos
Depois da abordagem feita sobre
responsabilidade social, sociedade civil, Estado e a
participação do setor privado, pode-se agora analisar um assunto
mencionado na introdução deste trabalho - os vários termos
utilizados para conceituar as ações sociais.
Como já foi afirmado, a busca
pela visibilidade na mídia e a necessidade de diferenciação são
os principais motivos do uso variado de termos, para distintas
atuações, embora muitas vezes apresentem projetos idênticos ou
vice-versa, isto é, projetos diferentes com a mesma
nomenclatura.
Sobre as diversas indagações que
surgem, Rebeca Raposo ressalta que, “[...] o crescimento do
terceiro setor, trouxe também desafios, entre eles um diz
respeito a um certo movimento de marketing, que se mistura com
marketing social, mas que de social nada tem […]” (RAPOSO, 2002,
p. 84).
Antes de se definir o sentido
dos termos utilizados, convém analisar o que LIMA (2002, p.
116), apresenta como os dois tipos básicos de apoio na área
social: o apoio assistencialista ou paternalista “aqui o
apoio se dá de uma forma descomprometida”, onde não há uma
relação entre os dois lados. É o caso em que a empresa doa algo
a uma comunidade, definida por ela mesma, sem conhecer as reais
necessidades dessa comunidade. O outro apoio é denominado
comprometido ou de resultados onde, “as empresas se
apresentam como voluntárias para o alcance máximo dos objetivos
delineados pela sociedade e, ao mesmo tempo, como doadoras dos
mais diversos recursos”. Nesse caso, a empresa demonstra que na
sua cultura organizacional, o fator social está presente, as
ações sociais não são mais pautadas pela caridade e sim pelo
compromisso.
De acordo com os tipos de apoio
pode-se mais facilmente identificar que tipo de ação está
ocorrendo. Contudo, há alguns termos que são mais utilizados,
como filantropia e cidadania empresarial, solidariedade
corporativa, marketing social, empresa cidadã e investimento
social privado.
A filantropia empresarial
foi o primeiro termo utilizado para identificar a participação
das empresas na área social, surgindo na década de 50, nos
Estados Unidos. A filantropia seria a ação ou a atitude daqueles
que são solidários, que se expressam sob a forma de doação ou
caridade. A ligação deste termo com a caridade, afasta-o do
conceito de responsabilidade social, que sugere compromisso,
levando-o à discriminação pela maioria das empresas que já
possuem um histórico de participação na área social.
Cidadania empresarial
“diz respeito a uma atitude pró-ativa que as entidades privadas
devem adotar diante dos diversos problemas que a comunidade na
qual se inserem apresenta, agindo de forma transformadora e
considerando-se como entes dotados de responsabilidade cívica.”
(Id. Ibid., p. 106). Cidadania empresarial pode ser entendida
como uma relação de direitos e deveres entre a empresa e a
comunidade onde ela atua, sendo que essa relação configura-se
como um compromisso social.
O termo solidariedade
corporativa remete à participação e sensibilização com as
questões do cidadão. A solidariedade traz a idéia de atenção de
uns para com os outros, superando a idéia de caridade ou a
doação. Devido ao seu caráter de sensibilização do público, é um
dos termos mais usados pela mídia e por empresas que querem um
reconhecimento imediato sobre suas atuações na área do social.
Já o marketing social,
termo de grande reconhecimento nacional, por parte da sociedade,
é comumente usado para designar a atuação da empresa no campo
social como forma de agregar valor à sua imagem institucional. A
expressão apareceu inicialmente na década de 50 e foi descrita
como “o processo de criação, implementação e controle de
programas para influenciar a aceitabilidade de idéias sociais.”
(MENDONÇA, 2002 p. 156). De fato, o marketing social objetiva
criar ou influenciar um comportamento coletivo acerca da questão
social, a fim de promover uma transformação da sociedade, que
não necessariamente esteja ligada à obtenção de lucro
financeiro.
Empresa cidadã
é mais um título do que uma atuação. É normalmente usado por
institutos e fundações para identificar ou premiar as empresas
que atuam de forma comprometida na área social. Mas, não raro,
acontece de algumas empresas iniciantes, nesse campo,
auto-intitularem-se de empresas cidadãs.
O investimento social privado
é o termo usualmente reconhecido (além da responsabilidade
social privada) por entidades como o Gife, para identificar as
atividades empresariais no campo social. O Gife defende que a
prática do investimento social privado deve estar conectado ao
interesse público e não deve ser usado como ferramenta de
comercialização de bens. No entanto, é sabido que a empresa
sempre ganha quando há a ação, seja na forma de benefícios para
imagem ou através da isenção de impostos, mas é importante que a
comunidade deva ser beneficiada sempre e antes do investidor.
O desenvolvimento da
responsabilidade social no Brasil pode trazer, com o tempo,
critérios que venham a resolver a questão da terminologia.
Enquanto isso, entidades como o Gife e o Ethos, através da
promoção de campanhas e premiações, elaboram critérios para que
as empresas participem desses eventos. Esses critérios agem como
legisladores dos tipos de ações sociais, fazendo com que as
organizações desenvolvam formas mais organizadas e homogêneas de
participação no campo da responsabilidade social.
3 ÉTICA
Pode-se considerar bom o homem
que se mostra caridoso com o mendigo que bate à sua porta à
noite e durante o dia, como patrão, explora impiedosamente os
empregados e operários de sua empresa? Nesta situação e em
muitas outras que aparecem no dia-a-dia da sociedade, as pessoas
se defrontam com a necessidade de pautar os comportamentos por
normas que se julgam mais apropriadas ou dignas de serem
cumpridas.
Essas normas são reconhecidas e
aceitas como obrigatórias e de acordo com elas o cidadão
compreende que tem o dever de agir desta ou daquela maneira.
Cumprindo a obrigatoriedade, pode-se dizer que a pessoa agiu
moralmente. A reflexão sobre este tipo de comportamento, os
problemas morais é o campo da ética.
Segundo VÁSQUEZ (2000, p. 21),
“A ética é teoria, investigação ou explicação de um tipo de
experiência humana ou forma de comportamento dos homens, o da
moral […]”.
A função fundamental da ética é
explicar, esclarecer ou investigar o comportamento moral, ou
seja, realizar uma reflexão acerca da moral. “A ética é a teoria
ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou
seja, é a ciência de uma forma específica de comportamento
humano.” (Id. Ibid., p. 23).
A ética é a ciência da moral,
isto é, de uma esfera do comportamento humano. Não se deve
confundir aqui a ciência com seu objeto de estudo, a moral,
apesar de já ter se configurado na atualidade o uso do termo
ética para identificar ações pautadas pela “boa moral”.
Apesar de não ser uma ciência
praticista, ela pode contribuir para fundamentar ou justificar
certas formas de comportamento moral, as necessidades e os
interesses sociais. Dessa forma, ela ajuda a situar no devido
lugar a moral efetiva, real de um grupo da sociedade que tem a
pretensão de que seus princípios e normas tenham validade
universal, sem levar em conta interesses concretos.
Por outro lado, se a ética,
quando trata de definir o que é bom, recusa reduzi-lo àquilo que
satisfaz o interesse pessoal, exclusivo, evidentemente influirá
na prática moral ao rejeitar um comportamento egoísta como
moralmente válido. Devido ao seu caráter prático, mesmo sendo
uma ciência teórica, ela acabou por ser vista, ao longo do
tempo, como uma disciplina normativa, com a obrigação de indicar
o melhor comportamento do ponto de vista moral.
O ético torna-se assim um tipo
de “legislador do comportamento moral dos indivíduos ou da
comunidade [...]” (Id. Ibid., p. 20).
A sua importância como teoria
está naquilo que explica e não na prescrição ou recomendação,
visando ações em situações concretas. No entanto, a realidade
moral varia historicamente e com ela variam as suas normas.
Muitas doutrinas éticas, historicamente concebidas, não se
configuram como uma investigação ou esclarecimento da moral como
comportamento efetivo humano, mas uma justificação ideológica de
determinada moral, correspondente a determinadas necessidades
particulares (religião, mercado, poder). E, para isto, elevam os
seus princípios e sua normas à categoria universal, válidos para
qualquer moral.
Com relação a estes excessos
normativistas das éticas tradicionais, procurou-se nos últimos
tempos limitar o domínio da ética aos problemas da linguagem e
do raciocínio moral, renunciando-se a abordar questões como a
definição do bom, a essência da moral [...] (Id. Ibid., p. 21).
Não cabe à ética formular juízo
de valor sobre a prática moral de outras sociedades ou de outras
épocas, mas deve antes, explicar a razão de ser dessas práticas
em seu contexto, esclarecendo a existência de morais diferentes
e até opostas.
Embora estejam estritamente
relacionadas como ciência e seu objeto de estudo, a ética não
fundamenta a moral. De fato, toda moral supõe certos princípios,
mas não é a ética que os estabelece em determinadas sociedades.
O que acontece é que a ética se depara com uma experiência
histórico social no terreno da moral, isto é, com uma série de
práticas já em vigor e, partindo delas, procura determinar a
essência da moral, as fontes de avaliação, a natureza e a função
dos juízos morais, os critérios que justifiquem estes juízos e
os princípios que regem as mudanças e a sucessão dos diferentes
sistemas morais.
O homem é um ser que transforma
conscientemente o mundo em que vive, ele faz da natureza um
mundo à sua medida humana e, desta maneira, transforma a sua
própria natureza. O comportamento moral é a manifestação da
natureza humana, não uma natureza eterna e imutável, mas uma
sempre sujeita ao processo de transformação que constitui a
história da humanidade. A ética estuda esses atos humanos,
conscientes e voluntários que acabam por afetar outros
indivíduos.
Na natureza humana, a moral se
manifesta pelo fato de determinada conduta ser considerada “boa”
ou “má”. Dessa forma, é expresso um valor ou desvalor e, assim,
ela orienta-se através dos valores. Por isso, a atribuição de
valores pela pessoa ou pela sociedade tem que ser uma tomada de
posição em relação a determinados bens numa determinada
situação.
Situações mutáveis não são
suficientes para a determinação do “bom”. De qualquer forma
precisamos nos orientar por um padrão incondicional, embora as
normas provenientes deste padrão também só possam ser cumpridas
numa determinada situação histórica. Trata-se portanto, de
relativizar o absoluto dentro de um determinado contexto [...]
todo relativo necessita de uma norma absoluta a que em última
análise ele possa ser referido [...] (LEISINGER & SCHMITT, 2001,
p. 19).
AMOÊDO (1997, p. 17) aponta o
consenso sobre um sentido ético comum, a partir da distinção
sobre dois tipos de ética: a descritiva e a normativa
ou prescritiva. Segundo ele, “a (ética) descritiva,
descreve a forma como as pessoas agem e explica sua ação em
termos de julgamento de valor e pressuposições”. Já a normativa
ou prescritiva estuda como as pessoas devem agir e analisa os
julgamentos de valor e pressuposições que justificam tais ações.
Parece contraditório afirmar que
a ética não deve agir como uma ciência normativa e, no entanto,
ela pode determinar princípios para a moral. LEISINGER (2001, p.
20) propõe a identificação de metas primárias que confiram um
objetivo à moral Tais metas seriam a busca pela “vida, a
liberdade de ação e a solidariedade”. Essas metas primárias
seriam o princípio central da moral. E é nesse contexto que
entra o caráter determinativo da ética, que agiria como uma
avaliação crítica da moral, baseando-se em princípios
universais.
3.1 A trajetória da ética no
mercado
As doutrinas éticas nascem e se
desenvolvem em diferentes épocas e sociedades como resposta aos
problemas básicos apresentados pelas relações entre os homens e
seu comportamento moral efetivo. Existe um vínculo íntimo entre
os conceitos morais e a realidade humana, sujeita historicamente
às mudanças. Assim, os estudos da ética não podem ser
considerados isoladamente, mas dentro de um processo de mudança
e de sucessão que constitui propriamente a sua história.
Na história da humanidade, um
fator torna-se sempre presente nas relações da coletividade, - o
mercado. De fato, o mundo material mantém-se historicamente
ligado ao mundo dos valores morais e o estudo do comportamento
humano deve sempre levar em conta as relações econômicas
inseridas no contexto histórico.
A relação entre a ética e o
mercado inicia-se quando o homem passa a viver em comunidades
organizadas, tipo tribos e o seu trabalho atinge um caráter
coletivo. A necessidade de ajustar o comportamento de cada
membro ao interesse da coletividade faz surgir uma série de
normas, mandamentos ou prescrições não escritos. Começa a se
considerar como bom tudo aquilo que contribui para reforçar a
união e como mau, o oposto. Caracteriza-se, assim, uma moral
coletivista, única e válida para todos os membros da comunidade.
(VÁSQUEZ, 2000).
O aumento da produtividade, em
conseqüência do desenvolvimento da pecuária e da agricultura,
bem como o aparecimento de novas forças de trabalho (fruto da
transformação dos prisioneiros de guerra em escravos), gerou o
acúmulo de produtos, que poderiam ser estocados por não serem
exigidos para satisfazer as necessidades básicas imediatas.
O acúmulo de bens por parte de
chefes de família propicia o surgimento da desigualdade
econômica e as relações de poder passam a ser polarizadas entre
senhores e escravos. Essa divisão da sociedade
culminou também com a divisão da moral, que deixou de ser um
conjunto de normas aceitas conscientemente por toda a sociedade.
“De fato, existiam duas morais: uma dominante, dos homens livres
– a única considerada como verdadeira – e outra, dos escravos,
que no íntimo rejeitavam os princípios e as normas morais
vigentes [...]” (VÁSQUEZ, 2000, p. 43).
Na prática, a única moral que
prevalecia era a dos homens livres, para quem o mundo ético era
o mundo da racionalidade e da liberdade de opiniões, que se
realizava através da participação política dos cidadãos.
Com o desaparecimento do mundo
antigo, nasce uma nova sociedade, a feudal. A escravidão
cede lugar ao regime de servidão e, sobre a base deste,
organiza-se a sociedade medieval, com um sistema de dependências
e vassalagens, entre os senhores feudais e os servos.
A moral da sociedade medieval
era baseada nas suas características econômico-sociais e
espirituais, pois no feudalismo era a religião que garantia a
ordem social. A igreja exercia plenamente o poder espiritual e
justificava esse sistema de dominação através de direitos
divinos de poder. Ela monopolizava toda a vida intelectual e a
ética, como doutrina da moral, ficou impregnada de conteúdos
religiosos.
Se antes os valores éticos
deveriam nortear as relações humanas em busca do bem comum, na
ética cristã a finalidade da prática dos valores é encaminhar as
relações dos indivíduos para com Deus, supremo juiz das ações
humanas: é ele que pode observar a consciência e saber as
intenções dos homens [...] (GONÇALVES, 1996, p. 21).
O princípio da liberdade era
oferecido aos servos para ser alcançado no mundo espiritual, já
que sua concretização era impossível no mundo real. A vigência
desses princípios marca o rompimento entre a ética e a política,
desvaloriza-se a autonomia e a deliberação humana, já que tudo
que acontecia era devido à designação divina.
Com o tempo, os pequenos feudos
crescem, passam a produzir em uma escala maior e esses senhores
feudais tornam-se burgueses que desprezam e ignoram a
nobreza. É o fim da sociedade medieval. A relações sociais são
regidas pela lei do máximo lucro, a mais valia. O
trabalho passa a ser valorizado e os servos são substituídos por
homens livres, assalariados com capacidade intelectual de
produzir, sendo que a moral que prevalecia era o princípio da
posse.
O sistema capitalista, base da
sociedade moderna, pregava que o homem devia ser livre para
produzir e adquirir bens e serviços. Na verdade, esse mesmo
trabalhador não ganhava o suficiente para adquirir o que era
produzido pelas suas próprias mãos. Ele estava livre da
imposição do sistema feudal, mas estava preso pela necessidade
de sobrevivência e a falta de alternativa de trabalho.
O desenvolvimento do setor
têxtil e metalúrgico propiciou a revolução industrial. No
entanto, o progresso tecnológico não trouxe mais dignidade ao
trabalhador. Pelo contrário, a jornada de 16 a 18 horas de
trabalho diário, a exploração de crianças e mulheres como
mão-de-obra barata, configuraram a revolução industrial como uma
das épocas de maior exploração do homem pelo homem.
No início do século XX, o modelo
de produção em série acaba por desvalorizar a capacidade humana
de liberdade de criação, tornando o homem um autômato, repetidor
de movimentos mecânicos. Nos anos 50 e 60, as empresas gozavam
ainda de uma relativa aceitação social, todavia, cada vez mais
setores da sociedade estavam convencidos de que as empresas e
seus dirigentes apresentavam desvios morais na busca pelo lucro.
Na medida em que no mundo
contemporâneo a economia fica predominantemente organizada, com
base na iniciativa privada e através de sindicatos e da
configuração da sociedade civil, o cidadão comum passa a fazer
exigências. Tornou-se indispensável o comprometimento amplo das
organizações com as questões éticas, sendo que no final dos anos
setenta, as relações entre economia e sociedade passam a atingir
um público mais amplo. As atividades empresariais ganham
destaque na mídia, surge o termo “ética empresarial” e as
organizações passam a ser avaliadas a partir de suas posturas
éticas e sua transparência nos negócios.
No Brasil, o sentimento de
revolta da sociedade diante da impunidade, corrupção, exploração
e dos escândalos, cada vez mais denunciados pela mídia, fez com
que a ética, como princípio ou preocupação, passasse a ser
discutida por todos os setores sociais. A conduta das empresas
passou a ser observada pela sociedade, que cobra delas respeito
ao meio ambiente e às pessoas, honestidade e transparência nas
transações comerciais e financeiras e a adoção de princípios
éticos nas diversas relações com seus públicos. (BUENO, 2002).
A possibilidade de harmonizar a
prática comercial-lucrativa com o agir moralmente bom ocasionou
dificuldades aos homens de várias épocas. A história nos
apresenta uma sucessão de morais que correspondem às diferentes
sociedades que se sucedem no tempo.
Fala-se em progresso com relação
à mudança e à sucessão de formações econômicas e sociais, sendo
que a evolução do processo produtivo é um exemplo claro da
desvalorização dos princípios universais da ética. Assim,
acaba-se por crer que a atividade produtiva não deve estar
atrelada à justiça social, à dignidade ou à cidadania.
A ética empresarial e as
exigências dela derivadas não desvirtuam a tarefa econômica
fundamental da empresa, pois a realidade mostra que a
organização pode sim crescer, sendo socialmente responsável e
pautando suas atividades pela ética e transparência.
3.2 Ética e transparência nas atividades empresariais
A atual sociedade, vinculada
diretamente aos meios de comunicação de massa e às informações
que eles divulgam, exige das empresas postura mais satisfatória
a respeito do relacionamento com seus públicos (clientes,
funcionários, acionistas) e com o ambiente em que atuam (meio
ambiente, comunidades vizinhas). Essa nova postura identifica-se
pela ética e a transparência em suas atividades.
Dentre várias empresas, a
organização transparente destaca-se por estar aberta ao diálogo,
estabelecendo canais abertos com seus públicos valorizando a
comunicação bilateral, isto é, tanto falando quanto ouvindo.
Estas empresas estão mais aptas a enfrentar um mercado mais
sensível e consumidores mais atentos às atitudes delas.
No entanto, a prática da
transparência exige, para muitas organizações, uma mudança em
sua estrutura administrativa. Destas organizações, destacam-se
aquelas caracterizadas por uma hierarquia rígida, fechada, sem
preocupação com a comunicação e baseada na teoria do lucro pelo
lucro. Estas empresas demonstram receios e inquietudes em agir
de forma transparente com o mercado, o que acaba por gerar
desconfianças por parte de seus públicos.
De acordo com HUMBERG (2002, p.
97),
Para muitas organizações
privadas, como para a maioria do poder público, comunicação e
relações públicas ainda se confundem com tentativas de
maquiagem, manipulação ou simplesmente com busca de persuasão
através de propaganda, muitas vezes enganosa.
E Lauretti ressalta,
Embora eu tenha a impressão, nos
dias que ocorrem, de que estejamos vivendo uma “crise de
corrupção” em praticamente todas as áreas de nossa atividade, o
que de fato está ocorrendo é uma “crise de transparência”, em
função da qual fatos tão antigos e enraizados ganham uma nova
abordagem, deixando de ser vistos como algo estrutural e
inevitável em nossos meios. (LAURETTI, 2001, p. 111).
O que Lauretti afirma é que
práticas empresariais tidas como justificáveis há algumas
décadas, já não são vistas da mesma forma. Exemplo: uma
indústria que traz, junto à promessa de empregos, riscos ao meio
ambiente, já não é tão bem quista quanto há 10 anos.
A determinação sobre o que é bom
ou não acerca das atividades empresariais baseia-se nos
preceitos morais vigentes, que estabelece uma relação entre o
que a sociedade pede e o que a empresa oferece. Ela, a
sociedade, julga e aprova o melhor, de acordo com seus
princípios definidos.
A sociedade exige das empresas
uma postura espontânea de transparência e não apenas cumprir
obrigações legais como declarações de imposto de renda. A
transparência exigida diz respeito à lisura em suas atividades,
preservando, é claro, seus segredos industriais, mas divulgando
seus lucros, prejuízos e possíveis fatos que venham a impactar
nas comunidades ou no meio ambiente.
Segundo Costa,
Diante das múltiplas
possibilidades de escolha e do vasto universo de informações
disponível, as pessoas deixam de agir unicamente como
consumidores e passam a atuar como cidadãos. Também, por isso,
as empresas devem integrar ao seu planejamento estratégico a
prática do diálogo franco e esclarecedor com os cidadãos; [...]
devem oferecer produtos capazes de atender às aspirações
integrais dos consumidores, de satisfazer suas necessidades de
uso e conforto e de respeitar a integridade do meio ambiente.
(COSTA, out, 2003).
Na conscientização da
responsabilidade social, o fator mais importante é a ética.
Independentemente da execução de projetos de atuação social na
comunidade, a ética como base da relação com os públicos, define
a responsabilidade social da empresa. No entanto, os valores
morais são relativos à cultura e ao momento histórico de cada
sociedade, sendo que a base para a responsabilidade social
empresarial pode variar de acordo com os juízos de valor que
compõem a ética em cada uma delas.
A partir da experiência que o
público vivencia com a empresa, dos conhecimentos que adquire
sobre seu funcionamento, sua história e seu desempenho é formada
a sua imagem.
De fato, a postura de
transparência nas atividades empresariais implica a
identificação da sua imagem institucional. “Da mesma forma, as
propostas éticas dessa nova postura supõem que a honestidade, o
respeito ambiental e a promoção social são pressupostos
genéticos.” (STROZENBERG, 2002, p. 119), e como tais, requisitos
para o consumidor definir as suas preferências.
A visão atual do processo de
comunicação empresarial exige transparência, procedimentos
éticos, informações verdadeiras e abertura para a discussão de
diferenças e explicitação de conflitos.
Para adotar atitudes que
correspondam a essa postura, é necessário, antes de qualquer
coisa, que as empresas e seus dirigentes tenham disposição e
interesse em possibilitar e facilitar o aumento da compreensão
mútua com os diversos grupos sociais com que se relacionam. E
que, além disso, contem com um adequado e confiável suporte
profissional para discussão de alternativas e formas de
comunicação. (HUMBERG, 2002, p. 97).
4 ESTÉTICA
De acordo com Hospers, “[...] a
estética é o ramo da filosofia que se ocupa em analisar
os conceitos e resolver os problemas que surgem quando
contemplamos objetos estéticos.” (HOSPERS apud BLÁZQUEZ, 1999,
p. 536). Objetos estéticos seriam todos aqueles que dão origem à
nossa experiência estética, ou seja, sensível, prazerosa e
também desinteressada.
A estética formula questões em
torno dos valores estéticos e da experiência estética [...] por
exemplo, o que faz com que as coisas sejam belas, existência de
modelos estéticos, relação entre as obras de arte e a natureza.
(BLÁZQUEZ, 1999, p. 536).
O certo é que, desde a Grécia
antiga, vários filósofos têm se preocupado em definir o conceito
e as características da estética, mas somente no século XVIII é
que houve uma definição mais concreta da estética como
disciplina, onde se destacam dois pensadores: Alexander
Gottlieb Baumgarten (1714-1762) e Emmanuel Kant
(1724-1804).
Baumgarten foi o primeiro a
definir a estética como disciplina, identificando a estética
como ciência do Belo e da Arte. Ele defendia a
idéia de que a beleza e seus reflexos nas artes representavam
uma espécie de conhecimento proporcional à nossa sensibilidade e
inferior à racionalidade, onde o Belo é o domínio dessa
sensibilidade, diretamente relacionada com a percepção, os
sentimentos e a imaginação
Já Kant possibilitou uma nova
compreensão teórica do Belo, onde a estética não está
subordinada a conceitos, ou seja, ela possui valor autônomo. De
acordo com Kant, a beleza não é a perfeição natural das coisas,
pois não está sujeita ao fim, isto é, o Belo não está
subordinado a um conceito ou a um fim objetivo, ele paira acima
da existência natural das coisas e da realidade propriamente
dita. Sendo uma atitude contemplativa, de caráter
desinteressado, a experiência estética está fundamentada na
intuição ou no sentimento dos objetos que nos satisfazem,
independentemente da natureza real que possuem.
A perspectiva inicial da
estética, definida pelo fundador dessa disciplina, Baumgarten, e
consolidada por Emmanuel Kant, desdobra-se, pois, em muitas
perspectivas parciais interligadas: filosofia do Belo, estudo da
experiência estética, investigação das estruturas das obras de
arte – que são objetos dessa experiência – e conhecimentos dos
valores a que esses mesmos objetos se acham ligados. Assim [...]
a estética é tanto filosofia do Belo como filosofia da Arte.
(NUNES, 2001, p. 15).
Mesmo com as definições
propostas por Baumgarten e Kant, a estética ainda enfrenta
problemas para consolidar-se como ciência. Um deles diz respeito
à questão sobre se a estética constitui reflexão filosófica ou
empírica, dado o seu caráter multidisciplinar.
O que se pode afirmar é que a
estética é constituída desta dúplice relação entre o caráter
especulativo da reflexão filosófica e o seu vital contato com a
experiência.
Não é a estética aquela reflexão
que, não alimentada pela experiência da arte e do belo, cai na
abstração estéril, nem aquela experiência de arte ou de beleza
que, não elaborada sobre um plano devidamente especulativo,
permanece simples descrição. Para definir seus próprios limites
a estética deve fixar o ponto de conjunção entre teoria e
experiência, evitando tanto sua separação quanto sua confusão,
acentuando ora sua tarefa estritamente filosófica, ora seu dever
de concreção. Coisas que não só não estão em contrastes, como
caminham intimamente unidas.
A teoria e a prática
encontram-se na estética, sendo que a estética ultrapassa a mera
prática. Isto ocorre quando se tem que encontrar uma nova forma
adequada. Se assim se faz, demonstra-se perícia técnica, ou
seja, um saber adequado ao momento. Dessa forma, chega-se à bela
imagem, isto é, um acerto na parte teórica, com adequação de
ações e um elevado grau de interpretação das novas situações.
Assim, teoria e prática relacionam-se adequadamente.
De certo é que a estética deve
sempre se aproveitar da experiência da arte, quer ela se inspire
numa própria e eventual experiência direta, quer ela se atenha
ao testemunho de outros, devidamente aprofundado e interpretado.
Assim, pode-se chegar ao estudo da estética a partir de dois
caminhos distintos, mas correlacionados: através da filosofia,
quando o filósofo estende seu puro pensamento a uma experiência
de arte, ou através da própria arte, quando de um exercício
concreto de arte, ou de crítica ou de história, surge uma
consciência reflexiva, orientada pela própria atividade.
Dessa forma, ao fazer
estética o filósofo não deve descuidar a solicitação da
experiência e os críticos, historiadores e técnicos não podem
esquecer de transferir-se para o plano especulativo.
A estética torna-se assim um
frutífero ponto de encontro, um campo no qual têm direito de
falar os artistas, os críticos, os amadores, os historiadores,
os psicólogos, os sociólogos, os técnicos, os pedagogos, os
filósofos, os metafísicos, com a condição de que todos prestem
atenção no ponto em que experiência e filosofia se tocam, a
experiência para estimular e verificar a filosofia, e a
filosofia para explicar e fundamentar a experiência. (PAREYSON,
1997, p. 10).
No concernente às empresas, a
estética está presente, de maneira geral, na ação
organizacional, ou seja, no processo formativo das políticas e
programas de ação, planejadas, inventadas e decididas por
aqueles que a administram. Mais ainda, está contida na ação do
profissional de comunicação e sua busca pela sensibilização dos
públicos em relação às atividades da empresa, valorizando as
atitudes éticas que devem estar inseridas no estético, isto é, o
uso do belo pautado pelo bem.
4.1 A relação entre a ética e a
estética: o belo e o bom
A arte não pode prover o ser
humano de tudo. No entanto, a moral aparece insuficiente. Quando
age moralmente, o homem decide por si e pelos outros,
sujeitando-se às regras das leis morais. Eticamente o ser humano
não se afirma pelo que tem de particular, sua liberdade é um
compromisso com a liberdade de todos e com o destino comum da
humanidade. Mas, esteticamente, o homem se afirma como
indivíduo, com direito à livre expressão de si mesmo.
No estético, o indivíduo joga
com a sua personalidade e, de experiência em experiência, vive
para o finito. No ético, não podendo continuar indiferente ao
seu destino, que é parte do destino dos outros, liga-se pelo
compromisso moral ao mundo e aos homens.
As diferenças entre o
comportamento ético e o estético do homem vão muito além da
definição acima. Ela se inicia com Platão,
que protagoniza um dos primeiros discursos conflitivos entre a
arte e a moral. Ele subordina a arte aos valores morais, valores
estes que, para ele, sintetizam o equilíbrio da alma com o
equilíbrio da vida social e , segundo ele, a arte seduziria os
indivíduos pela sua falsa beleza desviando-o da contemplação
intelectual do verdadeiro bem. Dessa forma, os valores estéticos
deviam estar subordinados à moral.
A subordinação dos valores
estéticos aos éticos tem sua contrapartida no esteticismo,
segundo o qual o belo exerce seu império sobre o bom. “A arte e
a beleza artística constituiriam o supremo valor nesta vida. A
arte não somente não é serva da moral, mas o seu oposto. É ela
que manda e se impõe sobre esta. A intensidade vital da
experiência estética seria o supremo ideal da vida.” (BLÁZQUEZ,
1999, p. 538).
No final do século XVIII, a arte
já era considerada como algo em si divino. O seu culto começou
com o iluminismo, em cujos esquemas mentais o belo suplantava
Deus. Alguns autores franceses defenderam abertamente a
substituição da ética pela estética como princípio justificativo
da existência humana. O sentido estético acaba suplantando o
senso moral e é a estética que realiza a moral e não o oposto.
O esteticismo acaba por
deflagrar uma separação total entre a ética e a estética. Os
defensores dessa teoria acreditavam que a arte devia ser amada
acima de todo o mundo, algo que não poderia ser concebido
ouvindo a voz da razão ética. Já os críticos apontavam a
estética como o ápice da frivolidade mundana, que conduzia o
homem ao domínio do irreal.
Em resposta a esses conflitos
entre a ética e a estética, surge a teoria interacionista,
que defendia que “[...] os valores estéticos e morais têm
diferentes funções a realizar no mundo, mas não agem
independentes uns dos outros: de fato a arte e a moral estão
intimamente relacionadas, e nenhuma das duas age plenamente sem
a outra.” (HOSPERS apud BLÁZQUEZ, 1999, p. 540).
A pretensão de querer distanciar
a ética de toda atividade humana, sobre pretexto artístico, é
uma atitude banal. Pois, como já foi demonstrado no capítulo
anterior, nunca houve uma atividade humana que estivesse à
margem de princípios morais e, conseqüentemente, da ética.
A verdade é que todas as grandes
obras de arte deixam algum rastro ético, positivo ou negativo,
em quem a observa, ou seja, todas as artes produzem efeitos
morais. Contudo, mais que moralizar, a arte tende a revelar a
comum natureza humana que existe em todas as pessoas por trás da
fachada de doutrinas divisórias e por este caminho tende a unir
a humanidade de forma mais eficaz do que as próprias doutrinas.
De início, nem a estética tem
por objeto próprio edificar moralmente, nem a ética produzir
beleza artística. A beleza pode auxiliar a bondade, mas não a
produzi-la. E a bondade ética pode ajudar a beleza, mas tampouco
produzir essa, necessariamente. A beleza estética e a bondade
ética podem existir separadamente, por mais que o ideal seja que
venham sempre juntas. Há autonomia entre as duas esferas, mas
que não se configura como uma total independência.
Tanto os que propugnam o
servilismo da estética à ética como da ética à estética incorrem
igualmente no erro de não levar em conta a analogia. A
beleza - como a verdade – o bem e a vida, é um conceito
analógico. Tem haver com o bem, mas não se confunde com ele. Há
tipos de beleza mas não são todos iguais. A natureza, por
exemplo, tem a sua beleza, e a bondade ética também a tem, como
a verdade e a vida. Cada valor é belo no seu gênero. Belo é o
pôr-do-sol. Mas não é o mesmo que a beleza de um ato de amor a
uma pessoa desvalida. [...] Até tal ponto é assim, que as
diversas formas de beleza podem ser consideradas separadamente e
sem implicação mútua necessária. (BLÁZQUEZ, 1999, p. 544).
A beleza não deve ser objeto de
amor, mas de admiração. E a bondade ética não deve ser somente
objeto de admiração, mas também de amor. Os artistas e
moralistas que conseguem admirar o belo e apaixonar-se pelo bom
não têm porque ter conflitos pessoais com a arte nem com a
moral. Se há esse conflito, é porque não são bons artistas e/ou
não entendem de ética. (Id. Ibid., 1999).
5 COMUNICAÇÃO E RESPONSABILIDADE
SOCIAL: o papel do profissional de Relações
Públicas
No âmbito comercial não é
difícil compreender que a comunicação está implícita em tudo que
uma organização realiza. E a comunicação na gestão social de uma
empresa é de grande importância para o seu desenvolvimento.
Dentro da organização, cabe a essa área difundir a ética como
valor, através da criação de programas que envolvam os
empregados nos objetivos sociais da empresa.
Dessa forma, além de disseminar
os valores, a comunicação pode fortalecê-los e torná-los claros
e tangíveis a todos os seus públicos. Cabe à comunicação não
somente divulgar um conjunto de regras a serem seguidas para um
melhor convívio social, mas também difundir os princípios que
embasam essas regras.
Assim, a comunicação
apresenta-se como fundamental para a conscientização da
importância da solidariedade e da cidadania, a fim de que esses
valores não sejam unicamente da empresa ou de seus dirigentes
mas, também, do empregado, que ao sair do seu trabalho será
solidário, onde quer que esteja, tornando-se um multiplicador
da cidadania.
É por meio do uso da
comunicação integrada e dos instrumentos de comunicação dirigida
que as empresas poderão planejar as ações sociais. É também
mediante a comunicação que a sociedade pode ter o conhecimento
das ações desenvolvidas. Um dos desafios é introduzir uma
alternativa ao modelo tradicional das organizações que até então
eram exclusivamente dirigidas ao fator econômico. (OLIVEIRA,
2002, p. 213).
A empresa que realmente entende
sua responsabilidade social tem transparência e dialoga com a
sociedade. Está continuamente interagindo com todos os seus
públicos e precisa estar sempre prestando informações corretas,
honestas e verdadeiras, sendo que, sua postura ética reflete-se
no seu nível de comunicação com a sociedade.
Dentro da comunicação, na gestão
social da empresa, destaca-se a atuação do profissional de
Relações Públicas, que deve ter a habilidade para a captação
de recursos, trabalho em equipe e experiência nos
relacionamentos com a comunidade e com os diversos públicos com
que a organização vai interagir.
O planejamento estratégico da
comunicação, uma das funções desse profissional, pode ajudar a
disponibilizar os recursos da ação social adequadamente,
minimizando os possíveis problemas decorrentes de falta de
integração entre a organização e as comunidades ou setores onde
ela pretende atuar. Sendo que ele, o Relações Públicas, ao
participar da elaboração do planejamento estratégico da empresa,
deve encarregar-se do redimensionamento dos objetivos, enfocando
o papel social e, também, de sua divulgação aos diferentes
públicos da organização, assim como orientar a alta direção com
relação às tendências sociais percebidas e às mudanças
estruturais necessárias.
A comunicação empresarial é
estratégica para a definição da qualidade das ações sociais e
dos relacionamentos da empresa com seus diversos públicos. As
relações públicas, enquanto atividade e profissão, até hoje têm
sido vinculadas ao apoio a objetivos econômicos, sendo que esta
visão constitui uma imagem falsa da essência dessa atividade.
A responsabilidade social desses
profissionais da opinião pública exige a aceitação favorável e a
aplicação de alguns critérios éticos indiscutíveis, como
apresentar escrupulosamente a verdade nas suas informações,
respeitar a liberdade do público, não cair na tentação de se
converter em fabricantes da opinião pública. (BLÁZQUEZ, 1999, p.
661).
Por meio do diálogo e da
conscientização é que a atividade de relações públicas é
reconhecida pela capacidade de explicitar as divergências,
objetivando o bem comum. Dessa forma, ela se torna
imprescindível para a concretização de uma atuação social
empresarial responsável, honesta e realmente eficaz.
5.1 As relações públicas e a
relação entre a ética e a estética
O sucesso da adoção da
responsabilidade social como o valor e os resultados dos
programas de atuação social na empresa depende da sensibilização
de seus públicos-alvo. Assim, é vital a importância das relações
públicas para uma empresa que adota a gestão social e objetiva
ter o seu reconhecimento como empresa socialmente responsável.
As ações sociais são atitudes louváveis e podem ser usadas para
a valorização da imagem institucional. Contudo, essa valorização
deve estar associada aos valores e objetivos éticos da empresa.
A formação profissional do
relações públicas remete ao estabelecimento de um relacionamento
harmônico da organização com seus públicos, visando melhorar o
desempenho empresarial, sem no entanto, infligir normas éticas.
A prática das relações públicas
no contexto moderno da comunicação social tem sua origem no
final do século XIX, por ocasião dos conflitos trabalhistas e
políticos da época. Foi o nova-iorquino Dormas Eaton
quem, em 1882, utilizou pela primeira vez a expressão “relações
públicas”, em uma palestra, referindo-se a ela como uma
profissão pública comprometida com o bem público. Entre 1870 e
1890, as recessões econômicas provocaram fortes tensões e
revoltas entre os agricultores e trabalhadores industriais e
entre as atividades empresariais e as políticas.
Como conseqüência desse
conflito, a Companhia Siderúrgica da Pensilvânia ficou
desprestigiada como providente do bem-estar de seus
trabalhadores, o que resultou na intervenção do governo federal
para pôr fim à tensão violenta entre o sindicato ferroviário e
os dirigentes das empresas ferroviárias da época. Os
trabalhadores foram profundamente conscientizados das supostas
injustiças empresariais e surgiu a necessidade moral da
mediação.
Os fundadores das primeiras
grandes empresas que tinham sido mitificados como aguerridos
capitães da indústria eram agora impiedosamente acusados de
exploradores e de ladrões ao estilo medieval. Os jornalistas não
desperdiçaram a oportunidade para denunciarem de forma
sensacionalista as corrupções dos mais famosos empresários da
administração pública.
Foi a partir desse contexto que,
no começo do século XX, a opinião pública norte-americana
adquiriu um impressionante poder, graças à imprensa, e deu-se a
perceber a necessidade de as empresas e concentrações de poder
se oporem de alguma forma aos ataques a que eram submetidas pela
classe trabalhadora. Ivy Ledbetter Lee, um jornalista,
compreendeu a necessidade de pôr fim aos conflitos por meio da
regeneração da imagem moral, da compreensão mútua e da
confiabilidade entre as partes em litígio. Ele elaborou uma
declaração de princípios, cujo lema era que o público devia
ser informado. Era preciso, na época, evitar a violência e
buscar o mútuo entendimento mediante o diálogo sincero e franco
entre os quadros dirigentes das empresas e os seus públicos
respectivos.
Assim, um jornalista se converte
num agente público de boas relações entre os empresários, os
trabalhadores e o público, informando com objetividade e
transparência, tornando-se o primeiro profissional de relações
públicas. (BLÁZQUEZ, 1999)
De acordo com esse breve
histórico, pode-se concluir que as relações públicas surgiram
como uma arte de desfazer conflitos trabalhistas e
administrativos, ou seja, a partir de objetivos sociais como
questões trabalhistas, diminuição da violência etc. Um contraste
do que muito se ouve a respeito da profissão, ou seja, de que
ela está historicamente ligada à obtenção de lucro para as
empresas, através da construção persuasiva de uma bela imagem .
Como parte de todo o processo de
desenvolvimento das relações públicas, tanto na ação como no
discurso evidencia-se a presença da ética e da estética.
[...] são desconhecidas as
razões pelos quais muito se fala sobre ética nas relações
públicas e nada ou quase nada se comenta sobre estética. O fato,
entretanto, é que independente de se concordar ou não com a
presença do comportamento estético, neste ou naquele setor
profissional, ele adere a todo o campo de ação humana. (SIMÕES,
1995, p. 121).
Nas relações públicas a ética é
vista como a busca pela transparência e responsabilidade das
atividades empresariais. Já a estética, como uma relação, uma
busca pela compreensão mútua entre as partes, ou seja, uma
“bela” solução para os problemas. A função e a atividade de
relações públicas devem ser éticas e estéticas.
Todas as atividades de uma
empresa, incluindo as que estão ligadas ao profissional de
relações públicas, devem ser feitas segundos os princípios do
bem viver – ético – que, em si próprio, contém os princípios da
bela harmonia – estético.
É importante ressaltar que isto
só ocorrerá se a organização, através de suas ações,
caracterizar-se como humanística, valorizando o ser humano,
suavizando a busca exclusiva dos seus interesses no mercado e
assumindo suas obrigações sociais.
Assim, a organização passa a
destacar-se entre as congêneres, atraindo a atenção pela beleza
de sua franqueza e responsabilidade, em torno das quais não é
necessário fazer sensacionalismo. A empresa, cujos atos
estiverem pautados pela ética em consonância com a estética, não
poupará esforços para desvendar e afastar os aspectos de
manipulação e ocultação da verdade, que leva ao desespero, à
mentira e ao descrédito.
Para atingir esses objetivos a
atividade de relações públicas busca, exatamente, a harmonia e a
compreensão mútua na relação entre as organizações e seus
públicos, onde cada situação traz novos desafios, tendo que
construir uma bela solução para os problemas.
Essa essência é encontrada,
inicialmente, na proposta de decisões em busca do bem comum.
Isto se refere à esfera da ética. Contudo, há outra dimensão que
transcende a ética. Trata-se da esfera da estética. Quando se
trata da relação de poder, criando âmbitos – possibilidades
úteis e valores – estamos no campo ético. Porém, quando se criam
jogos de possibilidades, caminhos solidários, estamos no espaço
da estética. A decisão é da ética. A bela decisão, implicando
harmonia, é da estética. (Id. Ibid., p. 104).
A atividade de relações públicas
pode ser entendida como a arte ou ciência que estuda as
possibilidades de como o indivíduo ou uma organização podem
coexistir com outros indivíduos e outras organizações. Tal
habilidade repercute em várias atuações, como, por exemplo, na
escolha de instrumentos adequados à implementação de projetos
sociais. Se não houver sensibilidade quanto a finalidade do que
se deseja realizar, corre-se o risco de meramente repetir o que
já foi feito em outra circunstância, por outra empresa, sem
medir o alcance estético das medidas adotadas. Pelo caminho da
análise, da consciência crítica, da partilha da verdade, pode-se
chegar ao justo princípio ético da ação, definida e explicitada
abertamente.
5.2 Imagem social
Na relação entre empresa e
público há sempre a formação da imagem institucional, seguindo o
percurso: ação organizacional – campanha institucional – imagem.
Logo, uma estratégia voltada à formação de imagem através da
ação organizacional legítima não é antiética e tampouco
antiestética, isto quando se relacionam realidade e informação.
Assim, os profissionais que cuidam da imagem da empresa tendem a
transmitir ao público uma idéia de empresa que, logicamente,
está propensa a influenciá-lo.
Imagem institucional é a
representação mental, carregada de valor afetivo, ou não, que o
indivíduo faz da organização, ou seja, imagem não é realidade, é
a percepção da realidade pela pessoa.
Essa imagem forma-se na mente do
consumidor com base em atributos desejáveis ou rejeitáveis,
pautados em valores considerados caros às comunidades onde as
empresas atuam. O atendimento ou não atendimento ou o
atendimento parcial a esses requisitos constituirão principais
informações para que a imagem possa ser considerada favorável ou
desfavorável ao público.
As imagens têm sido vinculadas à
civilização desde as pinturas rupestres até a informação moderna
mais sofisticada. Isto significa que elas se têm ancorado na
experiência da humanidade como ponto referencial sagrado, como
objeto de contemplação e como meio de transmissão de
conhecimento. Pela mesma razão, o homem sempre elaborou o seu
conhecimento por meio de imagens sensíveis e através delas se
comunicava com seus semelhantes.
Quando a imagem é resultado de
um processo tecnológico de alto desenvolvimento constitui-se num
indiscutível sistema de sedução. As imagens tendem a substituir,
por completo, os conceitos inteligíveis. Dá-se mais importância
àquilo que se vê do que aquilo que se possa entender por meio da
inteligência, sendo que a representação e a aparência substituem
a compreensão do ser. É o caso daquelas imagens com as quais,
graças à sua perfeição técnica e grau de manipulação, o
simulacro e a aparência acabam substituindo a realidade de tal
forma que se torna muito difícil discernir o que é a realidade
objetiva no seu estado natural e a representação figurativa
dela.
O mundo das imagens, sobretudo
visuais, é fascinante, e muitos devoram-nos com verdadeira
sofreguidão. Nas cidades mais avançadas as crianças nascem entre
ruídos e imagens e nem todos têm a sorte de conhecer a realidade
de forma direta e oportuna. Para muitos de nossos contemporâneos
as imagens processadas pelas modernas tecnologias são adoráveis.
Por elas, eles estão dispostos a perder a cabeça renunciando ao
pensamento lógico e a adotar modelos de conduta inspirados
exclusivamente na imaginação e no sentimento, em desafio aberto
ao princípio de realidade protagonizado pela razão. (BLÁZQUEZ,
1999, p. 357)
A imagem institucional de uma
empresa afeta diretamente o seu valor. A responsabilidade social
nasce do desejo das empresas de adquirirem uma imagem de
admiração e respeito de seus públicos. De acordo com Simões, “A
bela imagem […] não é formar, perseguindo unicamente a forma por
si. Exige antes o êxito da legitimidade. Requer antes o ético. A
estética passa pela ética. É um fazer com arte e jamais fazer
arte.” (SIMÕES, 1995 p. 109).
A formação da imagem se dá
quando o público recorre a uma série de referências pessoais
para verificar se uma determinada idéia merece a sua aceitação
e o seu interesse. As idéias consideradas verdadeiras formam as
crenças e, com base nelas, associadas à idéia da empresa ou
produto, constrói-se a imagem daquele público sobre determinada
empresa. Por isso, o peso das ações realizadas pela empresa, os
seus valores e a sua identidade terão grande influência para a
formação de sua imagem.
Desenvolver essa imagem perante
os públicos requer investimento e trabalho persistente,
principalmente pelo fato de as pessoas terem uma tendência a
conservar uma imagem já formada. É importante trabalhar a
identidade da empresa, construindo a sua marca e associando à
ela os valores relevantes para a sociedade, que são os
benefícios dos produtos e serviços e sua responsabilidade
social.
Algumas das atitudes
empresariais que influenciam fortemente a imagem organizacional
são as ações da empresa voltadas para a sociedade. Ações que
visam amenizar problemas sociais produzem um grande impacto na
formação da imagem empresarial [...] com a necessidade de
conquistar “o consumidor cidadão”, as empresas têm buscado
desenvolver uma reputação empresarial de ética e
responsabilidade social. (BUENO, 2002, p. 289).
Projetos que visam desenvolver a
sociedade não têm contribuição direta para o lucro da empresa,
porém refletem na imagem e ela colabora para atrair a
preferência dos consumidores e demais públicos. No entanto, as
empresas não podem adotar a postura social simplesmente para
ganhar mercado ou parecer bonita, valorizando apenas a estética
superficialista. Devem fazê-lo por reconhecer suas obrigações
sociais e por acreditarem que esse é o melhor caminho moral. A
postura ética deve ser parte da essência da atuação social.
Quanto à publicidade das ações
sociais da empresa na mídia, é mais uma questão a ser tratada,
pois se discute se é ético ou não divulgá-las.
A divulgação das ações já é uma
atitude normal e muito usada, mas muitas vezes é tida como
negativa. Leva-se em conta o discurso da exploração comercial da
pobreza e o montante gasto na publicidade, que muitas vezes
supera o investimento destinado à ação.
Não há dúvida de que uma
empresa, ao comunicar seus projetos de responsabilidade social,
pode incorrer nesse erro. Uma comunicação demasiado
sensacionalista, ou que coloque a ação social de forma pouco
hábil, pode de fato transmitir a idéia de que a empresa está
explorando comercialmente a pobreza de determinada comunidade,
por exemplo. Nesse caso, seria um erro crasso, pois o efeito
seria justamente o contrário: a empresa estaria atentando contra
sua própria imagem. (MIRANDA, 2002, p. 267-268).
Porém, há de se pensar essa
questão de maneira mais subjetiva. Do ponto de vista empresarial
a divulgação traz muitos benefícios, como já foi afirmado. No
que concerne aos benefícios da comunidade, a divulgação pode
incitar as concorrentes da empresa a começarem a atuar na área
social para, de certa forma, garantirem sua permanência no
mercado. Desse modo, a divulgação proporciona a inclusão de mais
empresas na questão social e, também, um maior comprometimento
com as suas atividades de responsabilidade social. Pois, como já
foi afirmado no primeiro capítulo, o reconhecimento público leva
à continuidade, que leva ao enraizamento da responsabilidade
social na cultura da empresa.
A formação da imagem social
inicia-se com a consciência de que a empresa não é e nem pode se
considerar uma instituição fechada. O relacionamento com seus
diversos públicos é imprescindível para sua sustentação no
mercado e a comunicação organizacional deve atuar no
fortalecimento dos valores sociais da empresa e na manutenção,
construção e/ou transformação dessa imagem.
É fato que as ações das empresas
voltadas para a sociedade influenciam em muito a imagem
empresarial, pois atuações que visam amenizar problemas sociais
causam grande impacto na opinião pública, associando à empresa a
idéia de preocupação com o social.
Seria praticismo definir uma
receita de bolo para a construção da imagem social. As
empresas utilizam vários instrumentos como divulgação de
informações e benfeitorias, a fim de melhorar sua participação
no mercado.
Mas, o desenvolvimento da imagem
social necessita apenas de ações planejadas e concretas de
transformação e manutenção de comportamentos por parte de toda a
organização, sendo necessário atividades como: respeito aos
funcionários e conscientização destes sobre suas condutas
sociais; que os conceitos utilizados sejam trabalhados de forma
produtiva entre os vários públicos que interagem com a
organização; cumprir com suas obrigações legais e privilegiar a
ética em suas transações comerciais; e, por fim, reconhecer que
a valorização da imagem é apenas um dos resultados da ação
social e não seu principal objetivo.
A partir daí a empresa pode
divulgar os seus projetos sociais e valores inseridos,
construindo e disseminando sua imagem como colaboradora do
desenvolvimento social.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na introdução do trabalho foram
levantados alguns questionamentos acerca do objetivo-fim das
ações sociais e do comprometimento das empresas. Cabe aqui
apresentar algumas considerações concludentes a respeito dos
itens discutidos.
Durante o desenvolvimento do
trabalho identificou-se que a literatura a respeito da
responsabilidade social já é capaz de determinar um conceito e
quais os critérios para se diferenciar uma ação social
responsável de pura filantropia oportunista. Assim como a
importância de entidades como o Ethos e o Gife para aconselhar,
ensinar e auxiliar na construção de uma atuação social
empresarial realmente responsável. De acordo com essas duas
entidades, a responsabilidade social é uma forma de conduzir os
negócios da empresa de tal maneira que a torna parceira e
co-responsável pelo desenvolvimento social.
A respeito da sociedade e da
vida em comum, ressalte-se que o convívio em comunidade é uma
resposta racional às necessidades humanas, pois nela o interesse
de cada um converge para o interesse coletivo. Em plena gozo de
sua liberdade, o homem escolhe essa nova forma de vida e dela
emerge um novo homem, um ser que busca a felicidade a todo
instante, mas que é obrigado a reconhecer que ela depende do
outro, que nem sempre está disponível para satisfazer seus
desejos.
A necessidade do outro também é
real e constante. Dele depende a satisfação física e espiritual
que leva à procura constante daquele ou daqueles que são capazes
de preencher o espaço vazio de cidadania. Na busca de respeito,
reconhecimento e prestígio, cada indivíduo se modifica e se
torna outro, melhor ou pior, justo ou injusto, dependendo das
relações que predominam em sua experiência de vida. Liberdade e
igualdade tendem a aparecer como dois pólos extremos do convívio
social no tocante de que liberdade de um está intimamente ligada
à dos outros, mas a sua plena existência se dá principalmente
através da comunhão e da reciprocidade.
A desigualdade social não se
deve, pois, à natureza humana, mas ao desvio que a humanidade
sofreu com a instituição da propriedade e depois com o direito
absoluto a essa propriedade, gerando um sistema individualista e
mesquinho. A sociedade não pode ser considerada como a soma de
seus indivíduos e de seus interesses, é muito mais que isso, ela
é uma totalidade viva, onde a solidariedade e a reciprocidade
devem ser oferecidas a todos os cidadãos e estes teriam o
direito livre à voz e ao voto como expressão legítima da
vontade, da consciência e do pensamento livre.
Embora não abordado em
profundidade neste trabalho, vale ressaltar a importância da
responsabilidade social interna, que deve focalizar os
funcionários e seus dependentes. Investimento no bem-estar dos
empregados e dependentes e investimento na qualificação são os
principais focos das ações de responsabilidades social interna.
Uma empresa socialmente responsável respeita seus empregados,
considera suas características individuais e seus anseios de
desenvolvimento, criando um bom clima onde todos possam ser
ouvidos e a credibilidade e a confiança estão presentes no
ambiente de trabalho.
O profissional de relações
públicas entende que a imagem e o conceito da organização
dependem primeiramente de seus empregados, pois sabe que os
altos gastos publicitários podem significar perda de
investimentos se o público interno dissemina informações
negativas e tem atitudes erradas perante o público externo.
Quanto à ética, constatou-se que
ela aparece como um dos fatores mais importantes na
concretização da responsabilidade social. Ao longo do tempo, os
fatores éticos têm se mostrado importantes para a melhoria dos
indicadores sociais e para o funcionamento do sistema econômico,
tornando-se um instrumento de contribuição direta para o
desenvolvimento empresarial. Em contrapartida, a sua ausência
tem como resultados escândalos, baixa estima dos funcionários,
perda da confiança pública na reputação da empresa, o que leva a
sérios abalos na imagem corporativa.
A importância da ética não pode
ser reduzida à configuração da boa imagem da empresa como parte
de seu patrimônio, pois desta forma ela recebe um caráter
extremamente utilitarista. Ela, a ética, deve ser objeto de
transformação da consciência corporativa e social.
O homem está habituado a se
aproximar do que lhe dá prazer e afastar-se do que o desagrada,
no entanto, esses atos não são mecânicos, neles estão presentes
conceitos socialmente inseridos. Amar o belo e afastar-se do
feio são reações socialmente desenvolvidas, que causam impacto
no desenvolvimento da sensibilidade e na percepção da estética
do mundo. A boa imagem empresarial, aquela que satisfaz os
públicos, tende a atrair resultados positivos para a
organização, atraindo o reconhecimento de seus públicos na
relação ação-satisfação.
O desenvolvimento sustentável, o
fortalecimento da empresa cidadã e a aplicação de ferramentas
que permitam avaliar o comprometimento das empresas junto a seus
públicos ajudam muito no desenvolvimento da sociedade, mas a
transformação social tem de acontecer dentro de cada indivíduo,
transformando o mundo num lugar mais justo para se viver.
Em uma época onde o capital é o
carro chefe e a comunicação desponta como o quarto poder na
sociedade, a força da publicidade e, conseqüentemente, da
imagem, cresce de forma vertiginosa.
Para muitos estudiosos, as
relações públicas são vistas como a comunicação com face humana,
já que este profissional desponta como o responsável pelo
relacionamento dentro e fora das organizações, garantindo que
imagem e realidade estejam em consonância com a ética. A imagem
do social deve ser pautada pela realização do ser humano
enquanto cidadão e responsável pelos acontecimentos que permeiam
a comunidade onde ele está inserido.
Inicialmente este trabalho
pretendia se ater somente às questões pertinentes à formação da
imagem social empresarial, mas ao longo do estudo identificou-se
a abrangência do assunto, tendendo a evidenciar a importância de
se apresentar a responsabilidade social como um compromisso
ético das empresas. Espera-se que este trabalho venha a
contribuir na explicitação dos temas discutidos e também na
identificação das atuações sociais que se apresentam através dos
meios de comunicação.
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